"Ser vegana me ajudou também a ser mãe, e ser mãe me ajudou a ser vegana"

Ser mãe não estava nos meus planos, mas aconteceu. Antes da chegada do Bernardo na minha vida, eu já era ovo-lacto-vegetariana há oito anos e vegana há um. Na época eu morava na casa-abrigo do Projeto Viva Gato: eram quatro pessoas morando em seus quartos e o restante da casa era ocupado por mais de 80 gatos.

Eu descobri que estava grávida pela reação dos gatos comigo. Claro que passei mal, tive tontura, pressão baixa, mas eles foram o melhor teste de gravidez possível: cuidavam de mim, me seguiam por onde eu fosse. Os gatos começaram até a pegar mais leve nas brincadeiras comigo, nada de mordida forte ou arranhão. Juntando os pontos e vendo como a natureza era perfeita, decidi ir ao médico e, realmente, eu tinha um pequeno ser humano crescendo dentro de mim.


Medo, pavor, pânico — isso era o resumo dos meus primeiros meses de gravidez. Eu me senti muito insegura, principalmente por comentários como "agora você tem que voltar a comer carne" ou "mas nem leite? Isso é loucura!". Ouvi de tudo, até que meu bebê teria algum problema por causa da minha alimentação e dos animais.

Mas eu me enchi de informação... e de couve! Cada fase da gestação tem as suas necessidades nutricionais e eu cumpria toda a tabela, escolhia bem os alimentos, mas claro: sempre alimentos sem nada de origem animal. Os exames eram ótimos, mas estar grávida...

O ser humano desaparece e surge uma "entidade" conhecida como mãe. Essa entidade não pode errar, não pode ter sua vida, individualidade, sonhos. Seus esforços têm que ser totalmente focados naquele novo ser — e, apesar de ter pai, avós e tios, quem tem que sempre ser totalmente entregue e disponível é a mãe. Somem os amigos, porque agora você tem outra rotina, outras necessidades e isso não se encaixa no que você era anteriormente.

E, assim, desde a gravidez, a mulher vai desaparecendo e surgindo uma mãe. Isso aconteceu comigo? Em partes, porque eu jamais me prenderia ao que esperam de mim. Afinal, eu sou vegana. Quero um mundo melhor para todos e nada que cause silenciamento e sofrimento para quem quer que seja deve ser aceito – e isso me inclui também. Mas eu tive, e ainda tenho, que quebrar com muita luta cada ponto que citei acima, porque todo mundo nos cobra, o tempo todo, que sejamos o que se espera de nós.


Eu me sinto insegura diversas vezes, mas consigo manter o meu centro porque uma das coisas que o veganismo me ensinou é que ninguém sabe tudo, ninguém está totalmente pronto, nós estamos aqui para aprender, com os livros, com as pessoas, com as crianças, com os animais. Humildade para ver suas fraquezas e fazer delas sua maior força, pra aprender e se superar. Estar aberto é importante e isso me fez não me colocar acima do meu filho, mas ao seu lado pra entrar no universo dele e aprender na mesma medida que eu ensino.

Meu filho tem hoje 4 anos e é uma das pessoas mais lindas que eu já tive o prazer de conhecer. Não falo porque é meu filho, falo porque ele está crescendo livre, deixando aflorar o amor e a compaixão que nasceram com ele. Ele é um menino empático, carinhoso e preocupado com a felicidade de todos, inclusive dos animais.


Eu me sinto orgulhosa por ajudar a despertar o melhor nele, e uma das formas de fazer isso é pelo exemplo. Ele entende perfeitamente que nós amamos os animais e, por isso, não nos alimentamos deles.

Ser mãe mudou muito a minha visão de mundo, como eu enxergo os outros e como eu vejo as outras mães. Inclusive as mães que não têm voz e que sofrem dia após dias, não podendo cuidar dos seus filhos, não podendo amamentar, não tendo direito a uma maternidade livre e tranquila como toda mãe merece. A forma como a indústria de laticínios trata as vacas é de deixar qualquer mãe nauseada. O veganismo nunca fez tanto sentido e eu nunca senti tanta empatia pelas vacas. Eu sei, eu já vi com meus próprios olhos: elas sofrem, elas sentem, elas ficam deprimidas, elas entram em luto.

Não acredita? Veja:


Por mim, por elas e por uma mudança no mundo eu hoje tenho mais certeza do que nunca de que o veganismo é o melhor para todos.

A mulher que sou hoje, a mãe feliz que sou, eu devo a dois seres: a Mispeta, minha primeira gata que me despertou para o veganismo, e ao Bernardo, que me ensina todos os dias como ser uma pessoa melhor e a não falar palavrão.